Dory e Pipa eram duas irmãs gémeas que foram viver com o tio. Eram tão parecidas, tão parecidas que quase não se distinguiam. Para além das roupas que usavam, a única coisa que as distinguia uma da outra era o sinal de nascença que tinham. Dory tinha metade de um sol na perna esquerda e Pipa tinha a outra metade do sol na perna direita.
Chegaram à Vila das Flores. O seu tio já as esperava há uma hora e meia. Dory e Pipa cumprimentaram-no.
– Então meninas? – perguntou o tio Artur – Onde se meteram?
– A mãe atrasou-se e perdemos o comboio. – respondeu a Dory.
– E ainda por cima a Dory esqueceu-se dos totós em casa. Quando chegamos à estação tivemos de voltar atrás. – acrescentou a Pipa.
– Bom, isso já não interessa. O que interessa é que chegaram bem. Vamos?
E lá foram para casa do tio Artur. Pelo caminho alguém começou a gritar:
– Tio Artur, tio Artur - chamava o Tomé, o filho da Dr.ª Joana – Tio Artur…
– O que se passa rapaz? – perguntou-lhe o tio Artur.
– A sua ovelha já pariu. – anunciou Tomé com um ar muito cansado, de tanto correr.
– Não me digas. Entra para a carroça. Vamos já para lá. Anda burrito.
– Então quem é que são estas lindas meninas? São novas cá na vila? – indagou Tomé.
– São as minhas sobrinhas. A Dory e a Pipa.
– Olá, eu sou o Tomé. Sou o filho da Dr.ª Joana.
– Olá. – disseram as irmãs em coro.
– Eu sou a Dory.
– E eu sou a Pipa.
– Então o que estão aqui a fazer? – perguntou, curioso, Tomé.
– Vieram viver comigo. – declarou o tio Artur.
– É. – acrescentou Pipa. – A nossa mãe vai trabalhar para França e nós ficamos cá.
– Então sejam bem vindas.
E lá foram em direcção à quinta. Quando chegaram estava lá um concentrado de gente: a Dr.ª Joana, o agricultor Zé, a tia Maria, o primo Afonso e o Bobi.
– Tia Maria! – gritaram as gémeas.
– Dory, Pipa, que bom ver-vos! – exclamou a tia Maria, abraçando-as.
– Olá Afonso. Olá Bobi. – cumprimentou Dory – Olá a todos.
– Ora, ora. Vocês é que são as gémeas. A vossa tia já me tinha falado muito sobre as duas. – disse a Dr.ª Joana.
– Sim, somos. – afirmou Pipa.
– E você, quem é? – perguntou Dory.
A Dr.ª Joana riu-se e disse:
– Eu sou a Dr.ª Joana. Tu deves ser a Dory, e tu a Pipa.
– Não. Eu sou a Dory e ela é a Pipa.
– Então a senhora é a mãe do Tomé. Muito prazer em conhecê-la. – disse Pipa.
– O prazer é todo meu.
– Há algum problema com o cordeiro? – interrogou o tio Artur.
– Infelizmente há. – comunicou o agricultor Zé.
– O cordeiro já devia estar a mamar, mas a mãe não deixa. – esclareceu a Dr.ª Joana. – Acho que vamos ter de ser nós a amamentar o cordeiro.
As gémeas olharam uma para a outra e exclamaram em coro:
– Nós fazemos isso!
– Calma. Vamos esperar mais meia hora. Se a mãe não lhe der de comer vocês podem amamentá-lo.
– Enquanto essa meia hora passa vamos comer um cozido à portuguesa que eu preparei. – propôs a tia Maria.
– Hummm! Deve estar delicioso, mãe. – comentou o Afonso.
E lá foram eles para casa do tio Artur.
– O almoço estava delicioso. – disse o agricultor Zé – Mas é melhor ir ver agora o cordeiro.
- Eu vou lá. – prontificou-se o tio Artur.
Passados quinze minutos o tio Artur voltou. O Bobi começou a ladrar, abanando a cauda.
– Tal como eu esperava. Vamos ter de ser nós a amamentar o cordeiro. – proferiu o tio Artur.
– Tio Artur, quer que eu vá ao mercado comprar o leite para a ovelha? – perguntou o Tomé.
– Se não te importares…
– Claro que não.
– Tio, podemos ir com o Tomé? – questionaram as gémeas.
– Podem, mas tenham cuidado. – recomendou a tia Maria.
Pelo caminho as gémeas, curiosas, não paravam de fazer perguntas ao Tomé.
– Tomé, como é que se chama o dono da loja?
– Quem é aquela senhora?
– Onde é que está a Clara?
– Há piscinas aqui?
– Calma. Têm tempo de conhecer tudo. Olhem, ali é o mercado. – anunciou o Tomé.
Saíram da carroça e foram direitinhas à bancada do Sr. Miguel, o homem do leite. Era ele que, todos os dias de manhã, ia à quinta do tio Artur tirar o leite às vacas, às ovelhas e às cabras.
– Olá Tomé. O que vais querer? – perguntou o Sr. Miguel.
– Quero leite de ovelha.
– Leite de ovelha?! Mas tu nunca gostaste de leite de ovelha! – surpreendeu-se o Sr. Miguel.
– Não é para mim. É para o cordeiro do tio Artur. A mãe não o amamenta e por isso vamos ter de ser nós a fazer esse trabalho.
– Ahhh, já estou a perceber. E essas meninas, quem são?
– Eu sou a Dory.
– E eu sou a Pipa.
– São as sobrinhas do tio Artur. Vieram viver para cá. – declarou Tomé.
– Então Tomé, vais querer um peixinho? – gritou a D. Palmira, a peixeira da vila. – Olha que tenho aqui umas fanecas…
– Bem, vai lá antes que sobre para mim. E tem cuidado que ela hoje não está para brincadeiras. – avisou o Sr. Miguel.
– Quem é aquela mulher? – perguntou Dory.
– É a peixeira. É um bocadinho chata, mas no fundo é boa pessoa. – sussurrou Tomé.
– Boa tarde, D. Palmira. Não tem antes um polvo?
– É claro que tenho, Tomé. Queres um grande ou um pequeno?
– Um grande. Hoje o meu pai vai comer em casa.
– Então aqui está. Mais alguma coisa?
– Não. Por hoje é tudo. Adeus.
– Adeus! – despediu-se a peixeira.
– O teu pai não costuma comer em casa? – inquiriu Dory.
– Dory, isso é pergunta que se faça!? – murmurou a Pipa, dando-lhe uma cotovelada.
– Não faz mal. O meu pai nem sempre come em casa. Ele é camionista e está em viagem a maior parte do tempo.
– Então como é que ele se chama? – quis saber a Pipa.
– Chama-se Paulo. Eu acho-vos uma piada!
– Porquê? – perguntou Dory.
– Olha, tu és curiosa e não escondes a curiosidade. És sempre a primeira a perguntar alguma coisa. A Pipa é igual a ti, mas consegue esconder um pouco a curiosidade no início. Só que, quando a conversa começa, já não se cala.
– É. – constatou Pipa.
– Só há uma coisa que nos distingue, para além da roupa, é claro. – disse Dory.
– O quê? – interrogou Tomé.
– Não devias ter tocado no assunto. – retorquiu Pipa.
– Prometes que não contas nada a ninguém? – pediu Dory.
– Prometo. – comprometeu-se o Tomé.
E mostraram-lhe os sinais de nascença. Tomé ficou admirado:
– Mas porque é que têm um sinal de nascença? Na minha terra não é assim.
As gémeas riram-se:
– Na nossa terra também não. É que …
– Dory, não sei se devíamos…
– Ele prometeu, lembras-te?
– Mas contar o quê? – questionou Tomé, confuso.
– É assim – explicou Dory – nós somos descendentes de uma família inglesa que era muito importante para o rei.
– E, – continuou Pipa – há alguns anos atrás houve um problema com a descendência. Um afinal não era filho, e depois já era… Uma grande confusão com uma família francesa.
– Então, a partir daí, todos os descendentes da família inglesa devem ter o sol em alguma parte do corpo.
– Excepto as gémeas, que só têm metade de um sol.
– O mesmo se passa com os descendentes da família francesa.
– Só que eles têm uma estrela em vez do sol.
– O Afonso e a Clara também têm, tal como o tio Artur. – concluiu a Dory.
– Bom. Que grande confusão. – disse Tomé, perfeitamente espantado com aquela história. Entretanto Tomé parou a carroça.
– O que foi Tomé? – perguntou Dory – Ainda não chegámos a casa do tio Artur!
– Pois não. Chegámos foi à minha casa. Vim deixar cá o polvo, mais nada. E assim, quando quiserem podem vir visitar-me, pois já sabem onde moro.
– Com todo o prazer. – disse Pipa.
Entretanto chegaram a casa do tio Artur.
– Tio Artur, já chegámos. – gritou Dory.
– Já podemos ir dar de comer ao cordeiro. – transmitiu Pipa.
Prepararam o biberão e deram de mamar ao cordeiro.
Depois disso, as manas ainda não estavam satisfeitas. Queriam conhecer mais pessoas. A vila não era assim tão grande, mas ainda não conheciam muita gente, nem toda a vila. E lá foram elas, à descoberta.
Conheceram o Sr. Ronaldo, o senhor que tinha uma loja com coisas que são necessárias para o dia-a-dia, o Sr. Inácio, o bêbado que era marido da D. Palmira, e o seu filho Roberto, que era muito manhoso. Também conheceram a Sr.ª Albertina, a mulher do Sr. Luís, o presidente da câmara, a sua filha Glória, a D. Luísa, mulher do Sr. Miguel, e os seus filhos, João e Francisco que também são gémeos. A D. Alda e o Sr. Rogério, que vendem frutos e legumes, a D. Vitória, que tem uma loja de comer para animais, a Sílvia, a Laura, a Joana e a Raquel, o Ti Tóino, o Lourenço, o Rodrigo e o Gui. Viram a Clara que já não viam há muito tempo. Ela estava a trabalhar no café.
Viram a Vila das Flores de uma ponta à outra e gostaram muito. Chegou a noite. Foram dar de mamar ao cordeiro. O Tomé e a sua mãe foram-se embora, e o agricultor Zé também. A Clara chegou a casa. Os primos brincaram até à hora de irem para a cama. Antes de se irem deitar as gémeas despediram-se dos primos e dos tios.
– Sabes, mana – confidenciou Pipa sentada na cama – gostei muito do nosso primeiro dia na Vila das Flores.
– Também eu! Ahh… – bocejou Dory.
Deitaram a cabeça sobre a almofada e num instante… adormeceram. Estavam muito cansadas. Tinham feito muitos amigos e tinham percorrido a vila inteira. E foi assim o primeiro dia de Dory e Pipa na Vila das Flores.
Cristiana Camacho, nº13, 6ºD